Citando Al Berto:
3 MITOS
1 a noite tranquila, o escritor debruçado para o seu caderno de notas, a luz incidindo sobre a página. O silêncio terrivelmente branco onde ele pode adivinhar o vento, Zéfiro talvez, esse terrível vento que desviou o disco que Apolo lançava e matou Jacinto. A noite tranquila, a morte de Jacinto, o poema não será escrito.
2 o escritor sentado, fumando cigarros, escutando os ruídos do entardecer no porto. O apito dum barco, as lombadas dos livros, uma ave sobre um rochedo, o mar. O sangue jorrando subitamente, os olhos turvos de Adónis, quando a Afrodite se lhe dirigiu, estava morto, já não pôde ouvir, nem viu a resplandecente anémona vermelha nascida do sangue caído na terra. Talvez outro poema, a não escrever!
3 o escritor reencostando-se no crepúsculo do mar. As aves voando muito baixo, a brisa, a maresia, o caderno de notas na algibeira, o olhar perscrutando a treva que se aproxima. A maldição: 《Que aquele que não ama os outros se apaixone por si próprio.》Narciso, a outra flor. A morte sobe das águas, revela o rosto, a paixão derradeira, o escritor fecha a janela. Acende a luz, abre o caderno de notas. Escreve: são três, os poemas que nunca ousarei escrever.